CAR-T para Doenças Autoimunes: Um Novo Capítulo da Terapia Celular
- intergendivulgacao

- 28 de nov. de 2025
- 3 min de leitura
Resultados recentes indicam que terapias CAR-T podem induzir remissão em doenças autoimunes complexas, expandindo o alcance da engenharia celular para além do câncer.
Um artigo publicado na Nature em novembro de 2025 destacou uma tendência crescente: terapias com células CAR-T - já consolidadas em cânceres hematológicos - começam a mostrar resultados promissores em doenças autoimunes.
A reportagem reúne dados de diversos estudos conduzidos principalmente na Europa e nos Estados Unidos, nos quais pacientes com lúpus, artrite reumatoide e colite ulcerativa tiveram melhoras significativas após receberem células CAR-T. Em alguns desses estudos, houve relatos de remissão, despertando grande interesse da comunidade científica.
Como funciona essa abordagem?
Embora as terapias CAR-T tenham sido inicialmente desenvolvidas para destruir células tumorais, pesquisadores estão adaptando essa tecnologia para intervir em doenças autoimunes graves. A lógica permanece semelhante: redirecionar células T do próprio paciente para atacar um alvo específico. No caso da autoimunidade, o alvo não são células cancerígenas, mas populações imunes envolvidas no processo patológico — especialmente células B.
Segundo a reportagem da Nature, os estudos utilizam principalmente células CAR-T projetadas para reconhecer moléculas presentes em células B associadas à resposta autoimune. Ao eliminar essas células, os pesquisadores buscam interromper o ciclo inflamatório e permitir que o sistema imunológico recupere o equilíbrio.
O procedimento segue etapas já conhecidas na terapia CAR-T:
Coleta das células T do paciente por leucaférese.
Modificação genética dessas células para introduzir um receptor quimérico (CAR).
Expansão e reinfusão, permitindo que as células modificadas atuem diretamente sobre as populações imunes envolvidas na doença.
A ideia central - ressaltada pelo artigo - é que essa eliminação direcionada das células B pode reduzir a atividade autoimune e abrir espaço para que novas células imunes se formem. Essa abordagem, ao invés de suprimir amplamente o sistema imunológico como fazem muitos imunossupressores tradicionais, busca atuar de maneira mais precisa e potencialmente duradoura.
Embora ainda seja cedo para afirmar como essa “reconfiguração” imunológica ocorre em detalhes, os resultados observados nos estudos iniciais sugerem que atacar seletivamente células B pode ser suficiente para aliviar sintomas graves e, em alguns casos, induzir remissão clínica. No entanto, os mecanismos exatos e a durabilidade desses efeitos ainda estão sob investigação.
O que os estudos mostraram?
De acordo com a Nature, os principais achados incluem:
melhora clínica significativa após a terapia;
casos de remissão, descritos em alguns grupos de pacientes;
redução da necessidade de tratamentos contínuos em determinados estudos;
efeitos adversos conhecidos da CAR-T, que permanecem sob monitoramento.
Os pesquisadores ressaltam, no entanto, que os estudos ainda são pequenos, que a compreensão dos mecanismos continua em desenvolvimento e que é necessário acompanhar os pacientes por períodos mais longos.
Por que isso importa?
A reportagem da Nature destaca que esses resultados podem representar o início de uma mudança importante no tratamento das doenças autoimunes. Caso estudos maiores confirmem os achados iniciais, a terapia CAR-T pode se tornar uma alternativa para pacientes com quadros graves e refratários, oferecendo uma abordagem mais direcionada do que os imunossupressores tradicionais.
Os dados preliminares sugerem que eliminar seletivamente populações de células B pode reduzir de forma significativa a atividade autoimune e, em alguns casos, levar à remissão clínica. Isso abre a possibilidade de desenvolver estratégias mais personalizadas e duradouras, embora ainda seja necessário entender completamente os mecanismos envolvidos e a segurança em longo prazo.
Para a área de terapias avançadas, esses resultados reforçam o interesse crescente em expandir o uso da engenharia celular além do câncer, explorando novas aplicações e investigando como diferentes tipos de células imunes podem ser modulados de forma terapêutica.
Conexão com o cenário brasileiro
O avanço internacional das terapias CAR-T para doenças autoimunes ocorre em paralelo a iniciativas nacionais voltadas a ampliar o acesso a terapias celulares avançadas. Projetos como os desenvolvidos pela Fiocruz e em parceria com a Caring Cross, focados em CAR-T de menor custo, podem, futuramente, abrir caminho para a implementação dessas tecnologias também no Brasil.
Para o INTERGEN - que atua na formação de profissionais, no desenvolvimento de vetores e nanocarreadores, e na promoção da inovação científica - esses avanços reforçam a importância de:
Acompanhar plataformas emergentes de engenharia celular;
Formar recursos humanos capacitados na interface entre imunologia e terapia celular;
Fomentar a integração entre pesquisa pré-clínica e desenvolvimento translacional;
Divulgar tendências globais para o público técnico e institucional brasileiro;
Essa perspectiva evidencia como a evolução internacional da terapia celular pode servir de estímulo para consolidar a pesquisa, a inovação e a aplicação clínica dessas tecnologias no país, mantendo o Brasil alinhado com os avanços globais.
Referência:
Fieldhouse, R. ‘They don’t have symptoms’: CAR-T therapies send autoimmune diseases into remission. Nature, 26 nov. 2025.
Disponível em: https://www.nature.com/articles/d41586-025-03885-w




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