Terapia GĂȘnica vs. Terapia Celular: Qual a diferença?
- intergendivulgacao
- 11 de abr. de 2025
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Algumas das mais importantes contribuiçÔes da ciĂȘncia nas ĂĄreas de biologia celular e molecular foram os avanços na terapia celular e na terapia gĂȘnica, que expandiram nosso entendimento sobre reparo e regeneração tecidual. Nos Ășltimos 20 anos, essas abordagens ganharam grande relevĂąncia na ĂĄrea da saĂșde, sendo consideradas promissoras para o desenvolvimento de novas estratĂ©gias terapĂȘuticas. Mas quais sĂŁo as diferenças, semelhanças e aplicaçÔes dessas duas terapias?
Terapia GĂȘnica
O que caracteriza a terapia gĂȘnica? Ela Ă© definida como a introdução de material genĂ©tico em cĂ©lulas para compensar um gene defeituoso ou induzir a produção de proteĂnas benĂ©ficas, com o objetivo de tratar ou prevenir doenças. Essa tĂ©cnica pode envolver a modificação da expressĂŁo de um gene ou a alteração das propriedades biolĂłgicas da cĂ©lula.
A entrega do material genético pode ser realizada por duas abordagens principais: in vivo e ex vivo.
A tĂ©cnica in vivo consiste na introdução direta do material genĂ©tico no tecido-alvo do paciente, por meio de vetores virais ou outras tecnologias de transferĂȘncia gĂȘnica.
A técnica ex vivo envolve o isolamento e cultivo de células selecionadas do paciente, seguido da modificação genética dessas células em laboratório e posterior transplante de volta para o organismo.
A terapia gĂȘnica pode ser classificada em dois tipos: somĂĄtica e germinativa. Apenas a terapia gĂȘnica somĂĄtica Ă© aprovada para uso clĂnico, pois a modificação de cĂ©lulas germinativas levantaria questĂ”es Ă©ticas relacionadas Ă transmissĂŁo hereditĂĄria de alteraçÔes genĂ©ticas.
A transferĂȘncia dos genes pode ser realizada por diferentes tipos de vetores, que atuam como veĂculos para entregar e expressar o material genĂ©tico no paciente. Esses vetores podem ser:
Virais: derivados de vĂrus modificados para inserir genes terapĂȘuticos sem causar doenças.
Plasmidiais: utilizam molĂ©culas circulares de DNA para carregar o material genĂ©tico.Nanoestruturados: incluem sistemas baseados em nanopartĂculas para otimizar a entrega do DNA ou RNA terapĂȘutico
A terapia gĂȘnica tem sido estudada para o tratamento de diversas condiçÔes, incluindo:
Doenças monogĂȘnicas, como a mucopolissacaridose e a fibrose cĂstica.
Cùncer, especialmente terapias com células CAR-T
Doenças neurodegenerativas, como Alzheimer e Parkinson.
Doenças cardiovasculares, por meio da regeneração de tecidos e modulação genética de fatores inflamatórios.
Terapia Celular
O principal objetivo da terapia celular é substituir, reparar ou melhorar as funçÔes biológicas de um tecido ou órgão lesionado. Esse objetivo pode ser alcançado por meio do transplante de células isoladas e caracterizadas para um órgão-alvo.
A terapia celular pode ser realizada por trĂȘs diferentes abordagens, de acordo com a origem das cĂ©lulas utilizadas:
Autóloga: as células são obtidas do próprio paciente.
SingĂȘnica: as cĂ©lulas sĂŁo provenientes de um irmĂŁo gĂȘmeo idĂȘntico.
AlogĂȘnica: as cĂ©lulas sĂŁo obtidas de um doador geneticamente diferente.
Além disso, a terapia celular pode ser classificada em duas categorias com base na função das células transplantadas:
Homóloga: as células transplantadas desempenham a mesma função do tecido original, auxiliando na reparação, reconstrução, substituição ou suplementação celular.
Não homóloga: as células introduzidas exercem uma função diferente daquelas do tecido original, sendo utilizadas para aplicaçÔes alternativas.
Nesse contexto, as células-tronco desempenham um papel central devido à sua capacidade de autorrenovação e diferenciação em diversos tipos celulares. Os tipos mais utilizados são:
Células-tronco embrionårias: possuem alta plasticidade e podem se diferenciar em qualquer tecido do organismo.
CĂ©lulas-tronco de pluripotĂȘncia induzida (iPSCs): reprogramadas a partir de cĂ©lulas adultas para adquirir caracterĂsticas semelhantes Ă s cĂ©lulas-tronco embrionĂĄrias.
As cĂ©lulas utilizadas na terapia celular sĂŁo capazes de modular um ambiente biolĂłgico complexo, participando de processos como migração celular, proliferação, deposição de matriz extracelular, angiogĂȘnese e remodelação tecidual.
As aplicaçÔes da terapia celular incluem o tratamento de diversas condiçÔes, como:
Cùncer e imunoterapia (exemplo: células CAR-T).
Doenças infecciosas (como HIV e COVID-19).
Doenças cardiovasculares (insuficiĂȘncia cardĂaca, infarto do miocĂĄrdio).
Doenças musculares (distrofias musculares).
Doenças neurodegenerativas (Alzheimer, Parkinson, esclerose lateral amiotrófica).
Doenças respiratórias (fibrose pulmonar, DPOC).
Doenças de pele (queimaduras, regeneração tecidual).
Teoricamente, não hå limites para as doenças que podem se beneficiar da terapia celular, tornando essa abordagem uma das mais promissoras para a medicina regenerativa.
Principais Diferenças entre Terapia GĂȘnica e Terapia Celular
Podemos destacar quatro principais diferenças entre a terapia gĂȘnica e a terapia celular:
Alvo terapĂȘutico
Na terapia gĂȘnica, o alvo principal Ă© o DNA, especificamente genes relacionados Ă patologia tratada.
Na terapia celular, o foco estĂĄ no uso de cĂ©lulas com propriedades terapĂȘuticas, como as cĂ©lulas-tronco, que podem auxiliar na regeneração ou reposição de tecidos.
Mecanismo de ação
A terapia gĂȘnica atua por meio da modificação genĂ©tica, seja adicionando, removendo ou corrigindo genes para tratar uma doença.
A terapia celular tem como mecanismo principal a reposição celular, onde células saudåveis substituem células danificadas em um tecido ou órgão afetado.
Tipos de células envolvidas
Na terapia gĂȘnica, a modificação pode ocorrer tanto em cĂ©lulas somĂĄticas (afetando apenas o indivĂduo tratado) quanto, em teoria, em cĂ©lulas germinativas (o que teria impacto hereditĂĄrio, mas nĂŁo Ă© permitido em aplicaçÔes clĂnicas por questĂ”es Ă©ticas).
Na terapia celular, utilizam-se cĂ©lulas-tronco (embrionĂĄrias ou adultas) ou cĂ©lulas jĂĄ diferenciadas que mantĂȘm funçÔes especĂficas.
Método de entrega
A terapia gĂȘnica utiliza diferentes estratĂ©gias para inserir o material genĂ©tico nas cĂ©lulas, incluindo vetores virais e nĂŁo virais.
A terapia celular Ă© realizada por meio do transplante de cĂ©lulas, que podem ser autĂłlogas (do prĂłprio paciente) ou alogĂȘnicas (de um doador).
Interseção entre Terapia GĂȘnica e Terapia Celular
A terapia gĂȘnica e a terapia celular nĂŁo sĂŁo mutuamente exclusivas e podem ser combinadas para melhorar os resultados terapĂȘuticos. Essa interseção ocorre quando cĂ©lulas sĂŁo modificadas geneticamente antes de serem transplantadas de volta para o paciente. Um exemplo sĂŁo as cĂ©lulas CAR-T (Chimeric Antigen Receptor T-cells) no qual cĂ©lulas do prĂłprio paciente sĂŁo modificadas geneticamente para atacar cĂ©lulas cancerĂgenas. Essa tĂ©cnica combina terapia gĂȘnica e terapia celular, sendo uma das mais promissoras no tratamento de determinados cĂąnceres.
ConclusĂŁo
A terapia gĂȘnica e a terapia celular representam avanços significativos na medicina moderna, abrindo novas possibilidades de tratamento para diversas doenças. Embora sejam abordagens distintas, elas podem ser combinadas para potencializar os resultados terapĂȘuticos. Com os avanços cientĂficos, essas terapias se tornam cada vez mais promissoras, trazendo esperança para o tratamento de doenças antes consideradas incurĂĄveis.
ReferĂȘncias