Terapia gênica para doença de Huntington avança em etapa regulatória
A terapia gênica experimental ifezuntirgene inilparvovec (AMT-130), desenvolvida pela empresa de biotecnologia uniQure para a doença de Huntington, avançou para uma nova etapa de avaliação regulatória. Em 2 de setembro de 2026, a uniQure anunciou a submissão de um Biologics License Application (BLA) à Food and Drug Administration (FDA), nos Estados Unidos, buscando uma possível aprovação acelerada para o AMT-130.
A empresa também solicitou à FDA Priority Review, modalidade que, caso seja concedida, pode reduzir o período de revisão para seis meses após o período inicial de 60 dias destinado à análise do pedido. No mesmo dia, a empresa informou a submissão de uma Marketing Authorisation Application (MAA) à Medicines and Healthcare products Regulatory Agency (MHRA), no Reino Unido.
🧠 O que é a doença de Huntington?
A doença de Huntington é uma doença genética, hereditária e neurodegenerativa progressiva. Ela é causada por uma expansão de repetições da sequência CAG no gene HTT, também conhecido como gene da huntingtina.
Essa alteração genética leva à produção de uma proteína huntingtina anormal, associada a processos que provocam degeneração progressiva de células nervosas no cérebro.
Entre as manifestações da doença estão alterações dos movimentos, incluindo coreia, além de mudanças cognitivas e comportamentais.
Com a progressão da doença, ocorre deterioração progressiva das funções físicas e mentais.
Apesar de a causa genética da doença ser conhecida, atualmente não existem terapias aprovadas especificamente para retardar o início ou desacelerar a progressão da doença de Huntington.
🧬 Como funciona o AMT-130?
O AMT-130 é uma terapia gênica experimental que utiliza um vetor viral AAV5 para entregar ao cérebro uma sequência genética capaz de produzir um microRNA artificial. A estratégia, desenvolvida pela uniQure por meio da plataforma miQURE, busca silenciar o gene HTT, reduzindo a produção de huntingtina.
O microRNA também foi desenvolvido para atuar sobre o fragmento potencialmente tóxico da proteína associado ao éxon 1. O tratamento é administrado uma única vez por meio de um procedimento neurocirúrgico estereotáxico, guiado por ressonância magnética. O vetor é direcionado ao estriado, incluindo o caudado e o putâmen, regiões cerebrais afetadas pela doença de Huntington.
Assim, o AMT-130 não utiliza uma estratégia de edição do DNA, como ocorre com tecnologias como CRISPR/Cas9. A abordagem proposta é de silenciamento gênico, utilizando um microRNA para reduzir a expressão do gene-alvo.
📊 O que mostraram os dados de 36 meses?
A submissão dos pedidos às agências reguladoras foi baseada nos resultados obtidos após três anos de acompanhamento dos estudos de fase I/II do AMT-130. Após 36 meses, os pesquisadores observaram que, entre os 12 pacientes que receberam a dose mais alta da terapia, a progressão da doença foi 75% mais lenta quando comparada a um grupo externo de pacientes com características semelhantes. Para fazer essa comparação, foram utilizados dados do estudo Enroll-HD, que acompanha a evolução natural da doença de Huntington.
Esse resultado foi considerado estatisticamente significativo e atingiu o principal objetivo definido para essa análise. É importante entender o que significa o número de 75%: ele não significa que os pacientes tiveram 75% de melhora ou que a doença foi reduzida em 75%. O resultado indica que, nessa análise, a doença pareceu progredir mais lentamente entre os pacientes tratados com a dose mais alta do AMT-130 em comparação com o grupo utilizado como referência.
Os pesquisadores também avaliaram a capacidade funcional dos pacientes, ou seja, aspectos relacionados à capacidade de realizar atividades do dia a dia. Nessa avaliação, a dose mais alta do AMT-130 foi associada a uma redução de 60% na velocidade de progressão em comparação com o grupo externo.
Outro dado analisado foi o neurofilamento de cadeia leve (NfL), uma proteína que pode ser encontrada no líquido cefalorraquidiano e que é utilizada como um marcador de lesão das células nervosas. Após 36 meses, os pacientes que receberam a dose mais alta apresentaram, em média, uma redução de 8,2% nos níveis de NfL em relação ao início do estudo. Esses resultados são promissores, mas ainda precisam ser acompanhados por períodos mais longos e avaliados pelas autoridades reguladoras para determinar a segurança e a eficácia do AMT-130.
🏛️ O que significa o avanço regulatório?
A submissão dos pedidos à FDA e à MHRA representa um avanço no desenvolvimento do AMT-130, mas não significa que a terapia tenha sido aprovada. Nos Estados Unidos, a uniQure busca uma possível aprovação acelerada com base principalmente na análise de três anos dos estudos de fase I/II.
Em junho de 2026, a empresa havia informado que, após uma reunião com a FDA, a agência considerou que a análise de três anos poderia servir como base principal para uma eventual submissão de BLA pelo caminho de aprovação acelerada. A FDA também solicitou alinhamento sobre o desenho de um estudo confirmatório.
No Reino Unido, a submissão foi feita à MHRA por meio de uma aplicação de autorização de comercialização. As duas agências ainda precisam avaliar os respectivos pedidos e os dados apresentados. Portanto, o AMT-130 permanece uma terapia investigacional. A submissão não garante aprovação ou disponibilidade clínica do tratamento.
🔬 Quais são os próximos passos?
A uniQure informou que pretende apresentar uma análise de quatro anos dos estudos clínicos de fase I/II antes do final do terceiro trimestre de 2026. Esses dados poderão acrescentar informações sobre a evolução dos participantes e sobre a segurança e os efeitos clínicos observados com um período maior de acompanhamento.
O avanço do AMT-130 para a etapa regulatória representa um marco no desenvolvimento de uma estratégia de terapia gênica direcionada a uma doença neurodegenerativa genética. A avaliação pelas agências reguladoras e o acompanhamento clínico de longo prazo serão fundamentais para determinar a relevância clínica e o perfil de benefício-risco da terapia.





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