Fayuvi: FDA aprova primeira terapia gênica para crianças com síndrome de Sanfilippo tipo A
Em 17 de setembro de 2026, a Food and Drug Administration (FDA), agência reguladora dos Estados Unidos, aprovou o Fayuvi (rebisufligene etisparvovec-hopf), uma terapia gênica de dose única indicada para o tratamento das manifestações neurológicas da mucopolissacaridose tipo IIIA (MPS IIIA), também conhecida como síndrome de Sanfilippo tipo A, em pacientes pediátricos com função neurodesenvolvimental preservada.
Segundo a FDA, o Fayuvi é a primeira terapia aprovada para pacientes pediátricos com MPS IIIA e representa uma nova opção para uma doença rara e progressiva que, até então, não contava com um tratamento aprovado destinado a modificar seu curso.
O que é a síndrome de Sanfilippo tipo A?
A MPS IIIA é uma doença genética rara causada por alterações no gene SGSH. Esse gene contém as instruções para a produção da enzima sulfamidase, também chamada de N-sulfoglucosamina sulfo-hidrolase.
Na MPS IIIA, a deficiência dessa enzima prejudica a degradação do heparan sulfato, um tipo de glicosaminoglicano. Como consequência, esse material se acumula nos lisossomos das células.
A doença afeta principalmente o sistema nervoso central e está associada à perda progressiva de habilidades cognitivas, de linguagem e de outras funções do desenvolvimento. A criança pode apresentar desenvolvimento aparentemente normal nos primeiros anos de vida, seguido por uma trajetória de regressão neurodesenvolvimental.
Como o Fayuvi funciona?
O Fayuvi é uma terapia gênica que utiliza um vetor AAV9 para levar uma cópia funcional do gene SGSH para as células do organismo.
Mas por que isso é necessário?
Na MPS IIIA, alterações no gene SGSH fazem com que o organismo produza pouca ou nenhuma quantidade da enzima sulfamidase. Sem essa enzima, o corpo não consegue degradar adequadamente o heparan sulfato, que acaba se acumulando dentro das células e contribuindo para os danos causados pela doença.
O Fayuvi busca corrigir esse problema fornecendo às células uma cópia funcional do SGSH. Com isso, as células podem voltar a produzir a sulfamidase e aumentar a capacidade de degradar o heparan sulfato.O tratamento é administrado uma única vez, por via intravenosa.
De forma simplificada:
Na MPS IIIA:Alteração no SGSH → pouca ou nenhuma sulfamidase → acúmulo de heparan sulfato.
Com o Fayuvi:Cópia funcional do SGSH → produção de sulfamidase → maior degradação do heparan sulfato.
Essa é a ideia da reposição gênica: fornecer às células uma cópia funcional do gene que está relacionado à deficiência.
Uma terapia administrada pela veia que alcança o sistema nervoso central
Um dos aspectos científicos mais relevantes dessa aprovação está relacionado à forma de administração do Fayuvi. O tratamento é administrado sistemicamente, por via intravenosa, utilizando o vetor AAV9. A FDA destacou que a administração sistêmica desse vetor conseguiu proporcionar entrega gênica ao sistema nervoso central em níveis considerados terapeuticamente relevantes.
Esse aspecto é particularmente importante porque o sistema nervoso central apresenta barreiras biológicas que dificultam a chegada de muitas moléculas terapêuticas ao cérebro.
Assim, a possibilidade de utilizar um vetor administrado pela circulação sanguínea para alcançar o sistema nervoso representa um ponto importante no desenvolvimento de terapias gênicas para doenças neurológicas.
O que os estudos clínicos avaliaram?
A segurança e a eficácia do Fayuvi foram avaliadas em um estudo clínico multicêntrico, aberto e de braço único, envolvendo pacientes pediátricos com MPS IIIA. A principal avaliação considerou mudanças nas pontuações cognitivas em crianças entre 2 e 5 anos de idade.
Os pacientes tratados com Fayuvi mantiveram ou apresentaram melhora da função cognitiva em comparação com uma coorte histórica não tratada. Segundo a FDA, essa diferença foi considerada relevante diante da trajetória esperada da doença, que envolve estabilização seguida de declínio das habilidades cognitivas durante esse período do desenvolvimento.
É importante destacar que essa comparação foi feita com dados históricos, e não com um grupo controle tratado com placebo dentro de um ensaio clínico randomizado.
Essa característica deve ser considerada na interpretação dos resultados.
Por que o tratamento é feito apenas uma vez?
O Fayuvi é uma terapia gênica de dose única. A dose recomendada pela FDA é de 3,0 × 10¹³ genomas vetoriais por quilograma de peso corporal, administrada por infusão intravenosa ao longo de aproximadamente uma hora.
Antes da administração, são avaliadas condições como função hepática e contagem de plaquetas. Os pacientes também recebem corticosteroides a partir de um dia antes da infusão e por, no mínimo, oito semanas após o tratamento.
A necessidade de acompanhamento após uma terapia gênica de dose única é um ponto importante: “dose única” não significa ausência de monitoramento. O paciente continua sendo acompanhado para avaliação da segurança e de possíveis efeitos relacionados ao tratamento.
Quais são os principais riscos?
A aprovação do Fayuvi também inclui advertências e precauções importantes.
Entre as reações adversas mais frequentes observadas nos estudos estão aumento de enzimas hepáticas, vômitos, febre, redução da contagem de glóbulos brancos, diminuição do apetite, redução da contagem de plaquetas, náuseas e aumento da amilase.
A bula também traz alertas para hepatotoxicidade, trombocitopenia, microangiopatia trombótica (TMA) e reações de hipersensibilidade ou relacionadas à infusão. Outro aspecto destacado pela FDA é o risco potencial de longo prazo relacionado à integração do material genético no genoma e à possibilidade de desenvolvimento de tumores. Por isso, o acompanhamento dos pacientes após a terapia é uma parte importante do processo.
O que torna essa aprovação relevante?
A aprovação do Fayuvi representa um avanço importante no desenvolvimento de terapias para doenças genéticas raras que afetam o sistema nervoso. No caso da MPS IIIA, a estratégia está diretamente relacionada ao mecanismo molecular da doença: a terapia fornece uma cópia funcional do SGSH, permitindo que as células produzam a enzima sulfamidase que está ausente ou deficiente.
Além disso, o caso demonstra a aplicação clínica de uma estratégia baseada em AAV9 administrado por via intravenosa para alcançar o sistema nervoso central. Isso é particularmente relevante para o campo das terapias gênicas porque a entrega do material genético ao cérebro continua sendo um dos grandes desafios no desenvolvimento de tratamentos para doenças neurológicas.
Um marco, mas também um lembrete sobre os desafios da terapia gênica
A aprovação do Fayuvi mostra como uma estratégia inicialmente desenvolvida em pesquisa pode chegar à aplicação clínica quando são reunidas evidências suficientes de qualidade, segurança e benefício clínico.
Ao mesmo tempo, o caso evidencia que cada terapia gênica precisa ser avaliada de acordo com a doença, o gene-alvo, o vetor utilizado, a via de administração, a população tratada e os riscos associados.
A aprovação do Fayuvi não significa que a mesma abordagem possa ser aplicada automaticamente a outras doenças neurológicas. Cada indicação exige estudos próprios para determinar se o vetor consegue alcançar as células relevantes, se o gene terapêutico é expresso de maneira adequada e se os benefícios superam os riscos.
O que essa aprovação representa para a terapia gênica?
O Fayuvi chega a um cenário em que a terapia gênica passa cada vez mais da pesquisa experimental para a prática clínica em doenças genéticas específicas. No caso da MPS IIIA, a aprovação representa uma mudança importante: pela primeira vez, pacientes pediátricos com essa doença passam a contar, nos Estados Unidos, com uma terapia gênica aprovada para suas manifestações neurológicas.
Mais do que uma nova terapia para uma doença rara, o desenvolvimento do Fayuvi oferece também um exemplo de como diferentes elementos da terapia gênica — reposição de um gene funcional, utilização de um vetor AAV9 e administração sistêmica para alcançar o sistema nervoso central — podem ser combinados em uma abordagem terapêutica.
O acompanhamento dos pacientes ao longo dos próximos anos será fundamental para compreender a duração dos benefícios e a segurança em longo prazo dessa estratégia.
Referências
U.S. Food and Drug Administration (FDA). FDA Approves First Gene Therapy for Pediatric Patients with Sanfilippo Syndrome Type A. September 17, 2026.
U.S. Food and Drug Administration (FDA). FAYUVI — Product Information. 2026.
U.S. Food and Drug Administration (FDA). Package Insert — FAYUVI (rebisufligene etisparvovec-hopf). Revised September 2026.





Comentários